26 de mai. de 2010

Sandy e eu

 
Sandy e eu crescemos juntas. Nascemos na mesma cidade, Campinas, e temos a mesma idade - na verdade ela é um ano mais nova. Ainda assim, nunca nos vimos - ao vivo, quero dizer, pois eu a vi incontávies vezes em revistas e na televisão -, a não ser que tenha sido por acaso, sem a gente saber. A grande diferença que pauta nossa relação é que, se eu a conheço, talvez com um pouco mais de detalhe que alguns fãs de longa data, ela sequer sabe que existo. Talvez possa me dar ao luxo de, comodamente, pertencer àquela temível massa que aglomera "o outro", esse que pode te julgar e não gostar de você. Isso a Sandy não pode fazer comigo.

Sandy estudava numa escola ao lado da minha, o Colégio Notre Dame. Lá no meio daquele descampado longe do centro, depois de cruzar o pontilhão sobre a rodovia Dom Pedro I, percorríamos a mesma rua todos os dias. Íamos de carro (de tão longe, era a única maneira de ir) e ela passava em frente da Escola Comunitária antes de chegar. Na hora de ir embora, era a minha vez de passar em frente ao seu colégio. Embora tivessem estilos diferentes (a Comunitária era construtivista, o Notre Dame, católico e com aulas de catecismo), ambos tinham prestígio e bom nivel educacional. Em comum, contavam com uniformes espalhafatosos que tivemos que vestir por uns quantos anos: a camiseta amarelo-ovo da Comunitária competindo com a amarelo-alaranjada do primário do Notre-Dame. Urgh.

Ficamos sabendo quando ela e o Júnior cantaram na festa junina do colégio. Naquela época eles ainda não eram "Sandy & Júnior", só os filhos do Xororó. A Sandy com uma franjona (corte de cabelo que eu também usei) e o Júnior com mullets (corte de cabelo que meu irmão nunca usou). Eu sabia também que ela era perfeccionista, super autoexigente, e que chorava se não tirava dez na prova. Ou pelo menos foi o que me contaram.

Quando éramos pequenas, a Sandy morava em um belo prédio na rua Maria Monteiro, no Cambuí. Era a rua detrás da casa da minha avó. A Maria Monteiro e a Emílio Ribas iam em sentido contrário, íamos e vínhamos para onde quer que fosse por essas mesmas ruas. Todas as terças e quintas-feiras, por exemplo, eu passava em frente ao prédio dela para ir para o balé, pois a academia ficava na mesma rua do prédio da Sandy. E eu pensava que a Sandy morava lá.

A prima da Sandy fazia balé na mesma academia que eu. Lembro de uma vez, quando fazíamos o ensaio geral da apresentação de fim de ano já no teatro, com todas as turmas e todas as alunas, que a prima da Sandy não estava. A gente passava um semestre ensaiando os pas-de-burrés grupais e aquele ensaio no teatro Castro Mendes, que tinha mais de 800 lugares na plateia e um palco imenso (ao menos para nós, garotinhas interioranas aspirantes a bailarinas), era FUN-DA-MEN-TAL para que tudo corresse bem no grande dia. E a tal prima da Sandy tinha faltado no ensaio.

A professora, brava, mandou a secretária da escola ligar para a casa da menina para saber porque ela não estava lá (faltar nesse ensaio só se justificava em caso de morte na família ou hospitalização). Eu estava ao lado do orelhão (pois naquela época não existia celular) quando a Jane ligou. Uma empregada ou babá ou pessoa que não era da família atendeu e disse que ela não iria "porque estava dormindo". Será que a Sandy também podia faltar nos compromissos para ficar dormindo?

Depois a Sandy se mudou do prédio e foi morar no condomínio de uma amiga minha lá no Gramado, bairro ao lado do meu. Era um condomínio com casas de alto padrão, muitos metros quadrados, jardins, piscinas, e a casa da Sandy (e a da minha amiga, e a de algum amigo de meu irmão) era uma delas. Acho que além do jardim e da piscina, tinha também um heliporto.

Nesse então nós já éramos adolescentes e a moda era ir ao shopping Galleria dar rolê ou ir ao cinema com a tchurma. Uma vez fiquei sabendo que o Júnior, para ir ao cinema, tinha que levar o guarda-costas junto. Meo deos. O guarda-costas controlando cada passo seu naquilo que era o ápice de nossa liberdade juvenil com 13 anos de idade?

Pouco mais tarde, quando eles (nós) estavam no colegial, começaram a gravar o seriado que passava na Globo. As gravações eram no Liceu, colégio em que minha priminha estudava. Se não me engano, as gravações eram aos finais de semana, e uma amiga de uma amiga era parte do elenco. Acho que havia sintonia entre Sandy, Júnior e o elenco, lembro de algum comentário sobre essa amiga de minha amiga ter sido convidada para festas de aniversário deles, enfim. Minha priminha, 14 anos mais nova que eu, com seus 3 ou 4 anos, a-ma-va a Sandy e tinha até uma sandália da grife dela.

Mas um dos meus episódios favoritos dessa nossa "convivência" foi na época em que eu estava no 3o colegial e estudava no Anglo (logo, a Sandy estava no 2o, com 16 anos). Ela fazia o tal programa na Globo e, como tinha muito público infantil (ou sabe-se lá que por quais motivações), declarava para as revistas que nunca tinha beijado (ã-hããã). No meio da aglomeração de meus intervalos entre as aulas, os colegas iam apontando com maior ou menor discrição o garoto, também do 2o colegial, com quem a Sandy ficava (ela continuava estudando no Notre Dame). Não lembro do nome dele, não lembro da cara, lembre que ele estava ali e era um garoto absolutamente normal.

E então eu passei no vestibular, me mudei para São Paulo e nunca mais soube nada da Sandy. Nada que não estivesse na mídia, digo.

Womber Woman, Varal de Dentro